terça-feira, 20 de maio de 2014

E você come por quê?!

Este texto nos foi gentilmente oferecido por mais uma colaboradora profissional, a psicóloga clínica Débora Franco, e nos traz uma visão sobre as causas de comermos errado, vindo lá da infância. Sabia que ainda podemos salvar, pelo menos, nossos filhos?

Outro dia, fui a uma consulta com meu médico que me auxilia no processo de emagrecimento.  Antes que


ele tivesse chance de falar qualquer coisa, eu fui logo dizendo: este mês eu engordei 5 kg. Depois, dei um sorrisinho que todo gordinho simpático sabe dar para amenizar o conteúdo do discurso.  Ele reagiu perguntando por que eu tinha engordado. Numa resposta simples e objetiva, disparei que estava comendo mais açúcar. Em seguida ele repetiu a pergunta: OK, mas por que você engordou?

Esta situação me inspirou para escrever este texto. Afinal, por que engordamos ou compensamos nossas frustrações em alimentos ricos em açúcares? Por que chegamos à obesidade apesar de vários alertas que recebemos durante o processo de engordar? Quais as situações que levam ao indivíduo comer ao ponto de prejudicar sua saúde, seu aparelho locomotor, suas relações afetivas e sociais?

Obesidade é um tema da moda agora. Todos os segmentos de saúde têm uma opinião formada sobre os alimentos vilões da boa forma.  Eu prefiro focar nas experiências associadas à apresentação dos alimentos.

Acho que concordamos que a infância é a fase fundamental para uma educação nutricional adequada e, conseqüentemente, alimentação equilibrada, entretanto, muitos pais pecam nas explicações na oferta dos alimentos naturais. Muitos usam ‘você tem que comer’ ou ‘coma para não ficar doente’ ou ‘se comer você vai ficar mais forte’, só que a criança tem uma forma muito particular de enxergar a saúde (Tô correndo, Tô brincando, Tô cheio de saúde). Convenhamos que, se isto funcionasse, o marinheiro Popeye seria o grande educador nutricional e todas as crianças seriam comedoras compulsivas de espinafre para ficarem fortes e saudáveis. De fato, a aquisição de novos comportamentos na infância tende a ser eficiente se a criança compreende a funcionalidade do que está sendo transmitido através das regras sociais e/ou parentais, porém, seu paladar é dominado pelos sabores presentes nos vegetais.

Sendo assim, surge uma outra dúvida: como fazer a criança se interessar por alimentos que por si só não são tão palatáveis quanto aqueles que são industrializados? Aqui entra o valor da experiência. Mais importante que a idade na qual são apresentados os alimentos saudáveis são as condições nas quais estes comportamentos são aprendidos, isto é, se a aprendizagem ocorre em um ambiente fortalecedor e positivo ou se esta se desenvolve em contexto coercitivo de queixas e castigos. Muitos descartam que muitos alimentos não considerados ‘saudáveis’ são ofertados em momentos de alegria, descontração e afeto.  A sobremesa vem após ter comido brócolis (recompensa pelo esforço???). A pizza marca as reuniões de família. Ninguém se reúne para comer salada. Isto faz com que haja uma associação positiva do alimento dito ‘não-saudável’ aos sentimentos que foram evocados no ato da sua apresentação que são muito, muito agradáveis. Por outro lado, comer alface, agrião e outros do gênero ocorrem em circunstâncias de ameaça e punição (coma se não...).

Na fase adulta essas experiências se generalizam na escolha de alimentos nas principais refeições. Muitos preferem comer o que ‘aquece o coração’, ‘ lembra a comida da vovó’ ou ‘tem gosto de infância’. Os afetos são estímulos poderosos na manutenção de certos tipos de comportamento que perduram ao longo da vida.

Eu pessoalmente não gosto de proibir principalmente se eu como. Como pais, temos que nos esforçar em dar modelos adequados sobre comportamentos almejados em nossos filhos. É necessário ter coerência no dizer e fazer. Se é tão bom, por que não sentamos juntos e experimentamos?  Punições e restrições não terão caráter tão ameaçador quando os filhos chegarem à adolescência. O ideal é o bom senso e experimentar, com a mesma disposição, todos os tipos de alimentos.

E se eu odiar couve flor? Primeiro evita dizer que odeia na frente da criança. Assim você forma um conceito fechado de que aquele alimento não presta. Eu já ouvi vários pais dizerem que seus filhos ‘puxaram’ ao seu gosto. Fala sério! RS! Você pode trazer o tio que gosta de palmito, a vovó que revira os olhos ao comer cenoura como modelos afetivos e confiáveis para a criança. É possível também criar receitinhas onde o couve flor seja mais atraente ao seu paladar. Já fez uma pizza low carb com couve flor?  Faz uma pesquisa de receitas criativas e saborosas. A idéia é ser uma experiência rica para todos e que evoquem sentimentos genuínos. Convida seu filho para fazer junto com você. Quando a criança se envolve no preparo de receitas ela quer participar de todas as etapas, inclusive a de comer.


Em alguns casos os pais precisam de um reforço na educação e manutenção de bons hábitos alimentares da família. A obesidade é um problema resultante de uma rede complexa de fatores que envolvem a vulnerabilidade emocional, a genética e a forma que o indivíduo se relaciona com a comida. Independente do valor nutricional, a comida considerada ‘não-saudável’ se mantém pelo seu valor hedônico (prazer), ou seja, é bom, é gostoso. O treino para substituição de desvios nutricionais não pode se limitar a conscientização, mas deve ter uma forma ampliada de intervenção com uma equipe multidisciplinar que mude a relação/experiência do individuo com o comer. 

Se o profissional utilizar uma abordagem com fortes críticas acerca do processo de emagrecimento, provavelmente o cliente desistirá. O profissional deve se lembrar que ele aponta os caminhos, mas cabe ao paciente suportar os percalços da sua caminhada.


Débora Franco
deborafrancopsi@yahoo.com.br
71 9183-0049