segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O espelho que nos reflete

Foi dado, ao ser humano, de todos os seres da natureza, a possibilidade de se perguntar sobre sua identidade. Para isso, foi necessário, que a humanidade, diante do seu destino original de re - conhecer, a si mesma e ao mundo, a tarefa de trazer a tona de forma progressiva do paraíso da inconsciência para a constante elaboração da consciência, sendo esta o espelho que reflete todos os conteúdos que surgem deste mundo desconhecido.

Sendo assim, seria o grandioso destino da humanidade revelar a perfeição que existe na estrutura do universo e, através de si mesma, no seu ser e na sua vida, dar uma visibilidade consciente a essa perfeição, tornando-a humana. Dentro deste processo, o que vem nos elucidar e também ajudar a perceber é que tudo que existe no universo, na natureza, perpassa pelo filtro humano para que se torne consciente e humanizado. Torna-se, então, o ser humano como centro do processo.

Definindo, o que é o ser humano, como processo central da humanização, diríamos que a sua existência deve-se ao dialogo existente entre o humano e o universo, um espelho dia

nte do outro, que se refletem mutuamente e infinitivamente, sem que se saiba dizer onde começa um e termina o outro. Embora sabemos que a capacidade reflexiva de exploração pertence ao humano, o que nos dá a primazia de defini-lo, a capacidade de se refletir, de espelhar.

Poderemos citar o mito de Narciso quando falamos deste espelhamento que é inerente ao humano, citando como ilustração a sua contemplação narcísica onde, a partir daí, nasce a tomada de consciência através do jogo de espelhos, sendo que ninguém mais conseguirá impedir a marcha da consciência.

Neste caminhar, através desta marcha, nós humanos buscamos o sentido da vida, que é a verdade e que significa ver, compreender e amar a realidade para, finalmente, viver junto e de acordo com ela, na integração de tudo que nos pertence. Este sentido está presente em tudo e encontra-se no mais intimo do ser humano. Precisa apenas ser descoberto e vivenciado conscientemente. É possível a todos nós, necessário se faz acessá-lo, repetindo o gesto de Narciso, abaixando-se e debruçando-se para ver a própria imagem espelhada na água.

Cabe a nós buscar aqueles que nos podem educar, nos ajudar discernir os caminhos – desconhecidos - a serem percorridos, descobrindo o que está oculto, trazendo  a  forma  humana  de dentro do próprio homem, extraindo e revelando a sua própria e intima essência. Eles  nos  ensinarão a ver  que o que está dentro está fora e vice-versa, nos levando a descobrir com seus ensinamentos que o infinito está no finito e vice-versa, que o divino esta no humano e vice-versa. Irão, também, nos fazer compreender que o essencial da realidade está no paradoxo que diz que o Uno se revela no verso, o invisível no visível, o Ser nos seres, Deus nas criaturas.

Afirmando então que tudo começa no Uno, multiplica-se nos versos e retorna ao Uno, tendo como construção de base, para existência desse paradoxo, o amor, que irá se multiplicar em muitos amores e voltará a se reunir mais uma vez no mesmo amor.

Advindo a necessidade de nós humanos, compreendermos que desta união paradoxal surgem a beleza, a verdade e o amor universal, sendo que a beleza será refletida em imagens, através do espelho, daquele ser individual com todas as suas especificidades e características. A verdade vem com a proposta de nos mostrar a importância da impecabilidade da palavra, da responsabilidade que cada ser humano deve ter consigo mesmo e com toda a humanidade e por fim o amor universal que é a síntese de tudo, que deve ser vivido pelo ser humano, onde não devemos esquecer que somos um, que fazemos parte de uma totalidade. Esses conceitos levarão a humanidade a se tornar mais humana, de forma natural, sem ordem, mando ou imposição.

Considerando que somos feitos a imagem e semelhança do nosso criador, resta-nos descobrir a unidade no meio da pluralidade, uma vez que não somos mera repetição uns dos outros, cada um traz consigo a sua individualidade, cada um de nós, é um pequeno espelho, onde serão refletidoa todos os conteúdos revelados através da beleza da verdade e do amor que irão compor a humanidade.
                                                                 

                          
                                                                       Lucia Helena Santiago Cerqueira
                                                                       Psicóloga
                                                                       CRP 03-02280